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Mantorras, balada por um futebolista
por Luís Freitas Lobo

O futebol é uma emoção com a qual se joga. Por isso, Mantorras é quase como um grito de ironia que faz explodir a sua essência irracional. Ainda bem.

Pense um pouco e responda. Que palavra domina hoje uma equipa ao entrar em campo: medo ou esperança? Pois bem, o futebol é técnica e táctica. Mas também é instinto e sentimento. Há várias formas de procurar definir a união destes vários factores.
Eu sei que, como diria Cruyff, o futebol é um jogo para ser jogado para cabeça, inteligência em movimento, mas a raiz da atracção fatal entre o homem e a bola tem outra essência. Eu acho que Mantorras personifica hoje esse lado selvagem, excessivo até, que faz a nossa primeira aproximação ao futebol. E isso, ironia das ironias, é nos transmitido por um jogador que está condenado a…não jogar. Talvez por isso, tem alegria até no aquecimento.
Faz lembrar uma bela prosa de Drumond de Andrade para quem se existisse um Deus que regulasse o futebol ele seria irónico e farsante, pelo que, confidencialmente, ia colocando pelos campos alguns dos seus delegados incumbidos de zombar de tudo e todos. Mantorras é um pouco isso. Só que, como também é um Deus cruel apenas lhe deu possibilidade de jogar vinte e poucos minutos por jogo.
Custa ver como um jogador que transmite esse sentimento, a adeptos, colegas ou simples vendedores de queijadas de Sintra, esteja condenado, por questões físicas, a jogar tão pouco tempo. Mas, se calhar é mesmo essa sua história de sofrimento que torna o seu futebol mais romanceado e sedutor.
(...)
Medo ou esperança? Pois, sejamos honestos. Vemos jogar a maioria das equipas, as ordens dos treinadores, a pressão (sempre a pressão) que os domina, e não custa dar a primeira resposta. Há, porém, jogadores que nos mostram outro caminho. Mantorras é um pouco isso. Um símbolo das causas perdidas. Vinte minutos para ver o futebol a partir de outro sentimento. Já é melhor do que nada. Talvez na playstation ele possa jogar os noventa minutos, não sei…